quarta-feira, 11 março, 2026

Ciência e pseudociência | distinções epistemológicas, desafios contemporâneos e o papel da divulgação científica

Por Neusa Nepomuceno

Em um contexto marcado pela rápida circulação de informações, especialmente nas plataformas digitais, observa-se um crescimento significativo da adesão social a práticas pseudocientíficas, que se apresentam como alternativas às explicações e soluções fundamentadas no método científico. Esse fenômeno traz riscos concretos, pois interfere em áreas sensíveis como saúde pública, políticas sociais e processos democráticos de tomada de decisão, tornando necessária uma análise crítica sobre seus fundamentos e impactos.

É preciso refletir sobre a legitimidade da ciência em relação a outras formas de conhecimento, sem desconsiderar a importância cultural e social destas últimas. Além disso, trata-se de um debate essencial para a formação de cidadãos críticos, capazes de distinguir práticas baseadas em evidências daquelas que apenas aparentam cientificidade. O debate em torno das diferentes formas de conhecimento — senso comum, religioso, filosófico e científico — contribui para a compreensão das bases epistemológicas que estruturam a relação da sociedade com a produção do saber. Ressaltar a singularidade da ciência, marcada pela adoção do método científico, evidencia sua posição diferenciada no que se refere à confiabilidade e à capacidade de revisão crítica.

Outro fator é a constatação de que a ciência, por si, não garante sua aceitação social. É preciso investir em estratégias de divulgação científica que aproximem da população os resultados das pesquisas, assim como investir em práticas pedagógicas que promovam o pensamento crítico desde os primeiros níveis de ensino. O fortalecimento desses dois eixos é condição imprescindível para aproximar a sociedade dos avanços científicos e consolidar práticas democráticas mais conscientes e informadas. Dessa forma, vamos não apenas discutir fundamentos epistemológicos, mas também contribuir para o fortalecimento da ciência como instrumento de transformação social responsável.

A busca humana por compreender a realidade produziu, ao longo da história, diferentes formas de conhecimento, cada uma com fundamentos e objetivos específicos. O senso comum, o conhecimento religioso, o conhecimento filosófico e o conhecimento científico constituem exemplos de distintos modos de apreensão do mundo. No entanto, em meio ao reconhecimento da ciência como forma de produção de conhecimento validada pela objetividade e pelo método, observa-se o crescimento de práticas classificadas como pseudociências. Esse cenário coloca em debate não apenas a legitimidade e os limites da ciência, mas também a necessidade de fortalecimento da divulgação científica e da educação em pensamento crítico, como estratégias de resistência ao avanço de crenças infundadas.

O senso comum caracteriza-se por ser empírico, prático e assistemático, transmitido socialmente por meio de experiências cotidianas. Embora útil para a vida diária, carece de sistematização e verificabilidade. O conhecimento religioso, por outro lado, baseia-se em princípios transcendentais e dogmáticos, cuja aceitação decorre da fé, não estando sujeito à revisão empírica (Durkheim, 1996). O conhecimento filosófico distingue-se pela reflexão racional e crítica, voltada à problematização de questões universais, muitas vezes sem necessidade de comprovação empírica, mas fundamentada em argumentação rigorosa (Aristóteles, 2002). Já o conhecimento científico destaca-se pela adoção de métodos sistemáticos que permitem a observação, a experimentação, a verificação e a revisibilidade, fatores que conferem confiabilidade e caráter cumulativo ao saber (Bunge, 1980).

O método científico constitui a espinha dorsal da produção do conhecimento científico. Ele envolve a formulação de hipóteses, a realização de experimentos controlados, a análise de dados e a sistematização de conclusões sujeitas à revisão e refutação (Popper, 2004). A objetividade, a universalidade e a capacidade de autocorreção fazem da ciência o saber mais consistente para compreender a realidade. Diferentemente de outras formas de conhecimento, a ciência não se sustenta em verdades absolutas, mas em proposições testáveis, que permanecem válidas enquanto não forem refutadas ou superadas.

A noção de pseudociência refere-se a sistemas de crença ou práticas que reivindicam o estatuto de cientificidade, mas que não satisfazem os critérios metodológicos e epistemológicos da ciência. Entre os exemplos mais conhecidos estão as terapias alternativas e as crenças populares. Essas práticas se caracterizam pela ausência de comprovação empírica replicável, pelo uso de explicações infalseáveis e pela resistência à crítica (Lakatos, 1978). A adesão social às pseudociências relaciona-se ao apelo de respostas simples para problemas complexos, ao fascínio pela tradição cultural ou ao marketing emocional, frequentemente reforçado pelas redes digitais.

Diante da expansão das pseudociências e da circulação massiva de desinformação, torna-se fundamental fortalecer a divulgação científica e a educação em pensamento crítico. A divulgação científica, entendida como o processo de comunicar ao público leigo os resultados, os métodos e a relevância da ciência, desempenha papel estratégico na aproximação entre comunidade científica e sociedade (Sagan, 1996). Uma comunicação clara e acessível favorece a compreensão dos benefícios da ciência e reduz a adesão a crenças infundadas.

Por sua vez, a educação em pensamento crítico deve ser promovida desde os níveis básicos de ensino, estimulando habilidades como a análise de evidências, a avaliação de argumentos e a distinção entre opiniões e dados verificáveis. Tal formação prepara cidadãos mais capazes de identificar falácias, resistir a discursos pseudocientíficos e participar de debates públicos fundamentados. Nesse sentido, a valorização da ciência não deve ser entendida como exclusão de outras formas de saber, mas como reconhecimento de sua singularidade enquanto instrumento de produção de conhecimento confiável e de intervenção responsável na realidade.

A pluralidade das formas de conhecimento — senso comum, religioso, filosófico e científico — integra a experiência humana. No entanto, a ciência, por adotar o método científico e sua capacidade de revisão contínua, ocupa lugar de destaque na produção de saberes confiáveis. A ascensão das pseudociências, ao buscar aparentar rigor sem atender aos critérios que definem a prática científica, revela desafios contemporâneos que só podem ser enfrentados com o fortalecimento da divulgação científica e da educação em pensamento crítico. Assim, a defesa da ciência como forma de conhecimento mais consistente não deve ser entendida como imposição cultural, mas como requisito para a construção de sociedades mais esclarecidas, democráticas e resistentes à desinformação.

Referências

  • Aristóteles. (2022). Metafísica. São Paulo: Edipro.
  • Bunge, M. (2002). Epistemologia: curso de atualização. São Paulo: Edusp.
  • Durkheim, É. (1920). As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Edipro. (Obra original publicada em 1912).
  • Marconi, Marina de Andrade e Lakatos, Eva Maria. (1978). Fundamentos de Methodologia Científica. 9ªed. Grupo GEN: Editora Atlas
  • Popper, K. (2004). A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix.
  • Sagan, C. (1996). O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras.